Feliz Natal!
Parece-me agora um momento apropriado para deixar os meus votos... sendo que a hipocrisia que afoga o mês de Dezembro já se dissipou por completo. Haverá época do ano mais tristemente fingida que o Natal? Sim... é bonito para os miúdos, sim... as famílias até se juntam, sim... as grandes superfícies comerciais agradecem... mas nunca se sentiram como péssimos actores (ainda assim um pouco acima do nível dos actores de "Morangos com Açúcar"!) a representar uma peça mal encenada e com um guião medíocre? Eu já.
Não me interpretem mal. Nem tudo é mau no Natal. Além dos sentimentos produzidos em massa, das "sms" enviadas em cadeia, da subida alarmante da taxa de suicídios, do consumismo desenfreado, dos excessos que a quadra parece ilibar e da necessidade imbecil que sentimos de não ficar aquém de todas essas expectativas, agrada-me a atmosfera nas ruas da Baixa, agradam-me até as músicas irritantes e repetitivas que tatuam "jingles" nos nossos tímpanos e o cheiro a castanhas assadas que se faz convidar ao ambiente.
E as "sms"...? Ai as "sms". Este ano, particularmente, as coisas correram mal para a rede clandestina de "sms" de Natal que sempre aparenta emergir para nos encher de amor pelo próximo. Tenho a reportar o lamentável facto de ter recebido DUAS "sms" de DUAS pessoas perfeitamente distintas e sem laços que continham exactamente a mesma cadeia de caractéres. Funesto? Sim. Nefasto? Sem dúvida. Só vem confirmar a minha teoria de que existe um grupo de pessoas que vive para criar estas mensagens e difundi-las para serem reencaminhadas até ao infinito. O que elas não esperam é que aconteçam estes infelizes cruzamentos de "sms" iguais, como se veio a verificar comigo. O mesmo aconteceu com e-mails... um deles, inclusive, tinha o mesmo texto dessas DUAS "sms". Haja originalidade c'o a breca! Se realmente fosse uma daquelas pessoas que se preocupa em mandar votos de Paz e Amor para a totalidade dos seus contactos telefónicos só porque tem de o fazer, certamente seria pessoa para mandar uma "sms" personalizada para cada um dos contactos! Não à standartização! (Desafio-vos a contar o número de vezes que já escrevi " "sms" " neste texto...)
No que concerne à vertente religiosa da quadra... acredito que alguém se esqueceu de ir à Missa do Galo. Eu não fui, de certeza... já que estava confortável junto do meu agnosticismo. Mas alguém foi! Ou então foi alguém que deu um valente traque durante o sermão...
Certo é que o Deus dos católicos ficou chateado com alguma coisa... e por esse motivo decidiu retirar a água sagrada aos portugueses (vulga chuva) e terá, num passo de dança mais arrojado, entornado essa jarra lá para os lados do Índico... causando grande estrondo... grande dilúvio... e pasme-se... 160 000 mortos (fora os que ainda não foram declarados).
Não devem ter avisado a Natureza que era Natal...
Todavia depressa nos esquecemos dessa tragédia... é que o Fim de Ano estava à porta! E que melhor pretexto para cometer todo o tipo de excessos e esquecer as nossas vidas repletas de frustrações e infelicidade! Qual Tsunami? Nós queremos é festa!
Expliquem-me... sinceramente expliquem-me. Porque é que concebemos nas nossas mentes que a Passagem de Ano é, de qualquer modo, alusiva ao degredo individual? Confesso que apesar dessa concepção desde tenra idade, nunca aderi ao ideal... mas compreendo que seja difícil de fazê-lo, sendo eu um exemplar danificado neste mundo de autómatos. Porque é que concebemos que só nos conseguimos divertir se nos excedermos? Porque é que o ser humano insiste em explorar as suas próprias fraquezas?
Compreendo... isto está a tornar-se demasiadamente filosófico.
Deixem-me só recompor-me...
E pronto.
Outra coisa que me intriga na Passagem de Ano são os rituais. Cada ano me deparo com um novo delírio. Ora sejam as cuecas azuis (a estrear!), as passas (um clássico), estar em cima de uma cadeira, segurar dinheiro nas mãos, abrir as janelas para deixar entrar o ano, bater tachos e panelas...
Eu pergunto...
Quem será o espertalhão que inventa estas coisas e que se farta de rir das figuras de urso dos outros?
É que...
Gostava de lhe apertar a mão!
Para a próxima Passagem de Ano eu próprio espalharei o "mostrar o rabo aos vizinhos para o ano nos sorrir" e o "tomar uma caixa inteira de laxante para purificar o ano".
Escusado será dizer que espero rir e soltar gargalhadas...
...estridentes.
Boa noite e... coiso.